UMA TRAGÉDIA QUE PODE ESCONDER UM CÁLCULO POLÍTICO DE ALTO RISCO
O sangue ainda fresco nas vielas do Rio de Janeiro escorre para além do asfalto. Transborda os limites da tragédia e se mistura à lama espessa da manipulação política. A chacina, que ceifou mais de cento e cinquenta vidas, não é apenas uma ferida aberta na carne social, é um espelho cruel do país que insiste em naturalizar o extermínio sob o pretexto da segurança pública.
Entretanto, por trás de tal brutalidade ostensiva, pode esconder-se algo mais pérfido: uma armadilha. Há indícios de que o episódio possa ter sido urdido em conluio entre o governo fluminense e setores da extrema direita nacional, interessados em deflagrar uma crise política de alto potencial desestabilizador. O cálculo seria frio e perverso. Diante da carnificina, o Governo Federal seria forçado a se posicionar. Ao condenar o massacre, Lula se alinharia moralmente às vítimas e às camadas populares que o apoiam; porém, enfrentaria a reação indignada da classe média, hoje mais sensível ao discurso da “ordem”, da “força” e da “segurança”. Em outras palavras, uma jogada para provocar fratura política e reverter a ascensão eleitoral que o atual presidente vem consolidando.
Mas o plano pode ter um efeito inverso. O Supremo Tribunal Federal, ao analisar a ADPF sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, que tende a agir com a firmeza que o momento exige. Se confirmada a responsabilidade direta do governo estadual e em especial do governador e sua cúpula o país assistirá a um movimento institucional de rara contundência, com repercussões imprevisíveis. O repúdio da Organização das Nações Unidas – ONU já projeta a imagem internacional de um Estado que, em pleno século XXI, permite chacinas em larga escala sob a égide da impunidade.
Não é razoável, nem moralmente aceitável, presumir que todos os indivíduos abatidos mantinham vínculos com o narcotráfico. Tampouco que cada um deles representasse uma ameaça concreta às forças policiais, que ali chegaram com o ímpeto de uma tropa de extermínio, movida por uma lógica de guerra – “No Mercy!”, como se a favela fosse território inimigo.
Foram apreendidas pouco mais de cem armas de fogo. Como, então, justificar mais de cento e cinquenta mortos? A matemática da repressão não fecha, e o descompasso entre números e vidas revela o abismo entre o dever de proteger e o impulso de destruir.
O governador Castro comemorou o massacre como um de seus antecessores, aquele que, em pouco tempo, terminaria preso por crimes odientos. As semelhanças não são apenas de estilo, mas de essência. Em meio ao luto, o espetáculo da barbárie, vídeos mostram policiais gritando de euforia, filmando corpos decapitados, exibindo cadáveres como troféus. Castro, por sua vez, vociferava vitória, como se o extermínio de cidadãos, ainda que suspeitos, fosse motivo de glória.
Tal cena afronta qualquer noção de humanidade e confirma o que já se suspeitava: o poder fluminense naturalizou a violência como instrumento político, convertendo a morte em linguagem de governo.
A história ensina que as armadilhas políticas, quando envolvem vidas humanas, costumam devorar seus próprios arquitetos. O sangue inocente, transformado em ferramenta de manipulação eleitoral, cobra caro. O Brasil, mais uma vez, se vê diante da encruzilhada entre a barbárie e a justiça e, dessa vez, não há neutralidade possível.
Antonio Carlos Morad
Morad Advocacia Empresarial
