Compreender por que homens cometem feminicídio é um passo essencial para enfrentar de forma eficaz esse tipo de crime. A análise dos casos que chegam à Justiça revela que o feminicídio não decorre de um impulso momentâneo ou de uma emoção descontrolada, mas de fatores estruturais ligados à desigualdade de gênero e a uma percepção distorcida das relações afetivas.
O elemento mais recorrente é o sentimento de posse. Em muitos casos, o agressor não reconhece a mulher como sujeito autônomo, mas como um objeto sobre o qual acredita exercer domínio. Essa visão nega sua humanidade e sua vontade própria, levando-o a se sentir no direito de controlar suas escolhas, comportamentos e liberdade. Quando essa expectativa é frustrada, a violência surge não apenas como reafirmação de poder, mas como expressão de quem se julga autorizado a “disciplinar” ou “descartar” aquilo que entende como sua propriedade.
Nesse contexto, o feminicídio aparece como reação à perda de controle. Situações como o término do relacionamento ou a simples demonstração de independência são frequentemente interpretadas como afrontas à identidade e à autoridade masculina. Incapaz de lidar com a autonomia feminina, o agressor transforma frustração em violência extrema, como se o ato fosse capaz de restabelecer uma ordem que acredita ter sido rompida.
Esse perfil psicológico, forjado em uma cultura que legitima a dominação masculina, revela um indivíduo incapaz de elaborar a frustração de forma madura. Diante da rejeição, não há espaço para diálogo ou contenção, apenas para a reafirmação violenta de poder. A mulher, nesse cenário, deixa de ser percebida como pessoa e passa a ser vista como a causa da frustração que precisa ser controlada ou eliminada.
Outro fator determinante é a existência prévia de um ciclo de violência doméstica e familiar. Raramente o feminicídio ocorre como primeiro ato agressivo. Ao contrário, costuma ser o ápice de uma sequência de abusos psicológicos, morais e físicos, revelando um padrão contínuo de controle.
Esses comportamentos não surgem de forma isolada, mas estão enraizados em uma cultura que historicamente naturalizou a superioridade masculina e a subordinação feminina.
Portanto, o homem comete feminicídio não por uma causa única, mas pela convergência de fatores como o sentimento de posse, a incapacidade de aceitar a autonomia da mulher e a inserção em um contexto de desigualdade de gênero. O crime configura, assim, a expressão extrema de uma lógica de dominação.
Reconhecer essas causas é fundamental para que o enfrentamento do feminicídio vá além da punição. É necessário investir em prevenção, enfrentando as estruturas culturais que sustentam a violência e promovendo relações baseadas na igualdade, no respeito e na autonomia.
Por Verena Carole
Advogada
