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24 de abril de 2026 | Morad

LUCRO FINANCEIRO VERSUS ASFIXIA EMPRESARIAL

LUCRO FINANCEIRO VERSUS ASFIXIA EMPRESARIAL

O Brasil não enfrenta apenas um problema de crédito. Enfrenta um problema de modelo.

Vivemos sob um sistema financeiro altamente lucrativo que, paradoxalmente, funciona de maneira disfuncional para quem produz. Enquanto instituições financeiras acumulam resultados bilionários com notável consistência, milhões de empresas operam em um ambiente onde acessar capital deixou de ser uma alavanca de crescimento para se tornar um fator estrutural de risco.

A elevada concentração bancária no país criou um ecossistema em que poucos agentes determinam o custo do dinheiro para toda a economia — e o fazem em patamares que, frequentemente, não dialogam com a realidade produtiva. O crédito empresarial, especialmente para micro e pequenas empresas, deixa de impulsionar e passa a estrangular.

Milhões de empresas inadimplentes não são um desvio estatístico. São consequência. Não de má gestão generalizada, como se insiste em sugerir, mas de um ambiente em que o custo do capital compromete qualquer tentativa de margem saudável. No Brasil, o comportamento é previsível: o juro sobe com rapidez e recua com lentidão, quando recua.

E aqui é necessário enfrentar uma verdade incômoda: o sistema bancário não é apenas participante desse cenário — ele é um dos seus principais sustentadores. É evidente que existem fatores como carga tributária, compulsórios e risco jurídico. Mas esses elementos não explicam, por si só, a persistência de spreads elevados ao longo de diferentes ciclos econômicos. O que se observa, na prática, é um modelo confortável para quem opera nele e profundamente oneroso para quem depende dele.

Há, ainda, um elemento pouco discutido, mas central para compreender essa dinâmica. Quando o crédito não é pago, o banco não absorve integralmente a perda. O sistema tributário permite que esses prejuízos sejam deduzidos da base de cálculo do imposto, reduzindo o impacto financeiro da inadimplência. Não se trata de recuperação total, mas de uma mitigação relevante. Isso produz um efeito silencioso: o risco do crédito não é suportado exclusivamente pela instituição financeira, sendo, em alguma medida, compartilhado com o próprio sistema.

Enquanto o empresário arca integralmente com o custo do crédito e com as consequências da inadimplência, o sistema financeiro dispõe de mecanismos que suavizam suas perdas, e a assimetria, portanto, se aprofunda.

E quando o crédito bancário se torna restritivo, surge a ilusão de alternativa. Factorings, securitizadoras, FIDCs e fintechs ampliam o acesso e oferecem agilidade, mas operam dentro do mesmo ambiente distorcido. O preço que cobram não é a origem do problema, é o reflexo dele. Em muitos casos, as taxas ultrapassam 100% ao ano não por vocação exploratória, mas porque o custo de referência já nasce elevado.

Forma-se, assim, um ciclo perverso e eficiente, especialmente para poucos: juros elevados geram inadimplência; a inadimplência reforça a percepção de risco; o risco justifica a manutenção de juros elevados. No centro desse ciclo está o empreendedor, financiando um sistema que deveria financiá-lo.

Quando se volta o olhar para o crédito público, que em tese deveria equilibrar esse cenário, o paradoxo se repete. O Brasil dispõe de instituições de fomento capazes de oferecer crédito em condições muito mais acessíveis. No entanto, grande parte dessas operações ocorre por meio de agentes financeiros repassadores, normalmente bancos comerciais. É nesse ponto que a distorção se consolida.

O crédito que nasce com custo reduzido passa a incorporar spreads, exigências e estruturas que frequentemente o afastam de sua finalidade original. O que deveria ser instrumento de desenvolvimento retorna ao mesmo circuito de encarecimento. Além disso, a exigência recorrente de garantias reais, muitas vezes incompatíveis com a realidade de micro e pequenas empresas, exclui exatamente quem mais precisa do financiamento.

O país cria mecanismos para democratizar o crédito, mas permite que eles operem sob a lógica que o restringe. Não se trata, portanto, de ausência de recursos, mas de como esses recursos são distribuídos, intermediados e precificados.

A última década deixou claro que essa dinâmica não é episódica. Mesmo em períodos de juros básicos historicamente baixos, o crédito empresarial permaneceu caro. Quando os juros sobem, o repasse é imediato. Quando caem, o ajuste é lento, parcial ou inexistente na prática. Isso não é exceção. É padrão.

Se continuarmos tratando esse tema com superficialidade, seguiremos assistindo à mesma realidade: empresas operando para pagar juros, e não para gerar riqueza.

Mas há um ponto de inflexão possível. Ele exige enfrentar interesses estabelecidos, ampliar a concorrência no sistema financeiro e, sobretudo, questionar, com clareza, a lógica de um modelo que lucra com a escassez e penaliza quem produz.

O Brasil não pode normalizar um ambiente em que o crédito atua como freio da economia real. Crédito não é privilégio, é infraestrutura econômica.

E enquanto continuar sendo tratado como um produto caro, restrito e concentrado, estaremos comprometendo não apenas empresas, mas o próprio desenvolvimento do país.

O Estado, em sentido latu sensu, deveria promover a busca por linhas de crédito acessíveis através dos tantos bancos de desenvolvimento espalhados por todo o País, mas infelizmente esses bancos de fomento são anacrônicos e burocráticos. Gritam em alto e bom tom que fomentaram bilhões de reais nos últimos anos, mas para quem foi esse fomento?

Na verdade, para as grandes empresas, inclusive multinacionais. Essas empresas não precisam de bancos repassadores, não existe essa exigência, mas pequenas e médias empresa sim, precisam. Assim, vemos claramente que não existe uma equidade, posto que, tais entidades veem as empresas pequena e grandes como empresas de risco e óbvio, tal risco ocorre por conta da política desses bancos de desenvolvimento.

O alto grau de dificuldades para se conseguir um capital acessível revela a inutilidade desse setor para as milhões de empresas brasileiras. Procure um banco de desenvolvimento e pleiteie um crédito. Eles pedirão, certidões de todos os gêneros, balanços de 5 anos, projeto detalhado sobre a utilização do valor a ser liberado, claro, se for aceito o projeto.

Enfim, um engodo em todos os sentidos, nas tentativas junto aos bancos de desenvolvimento, depois disso, as arapucas e armadilhas que sobram para financiar empresas com juros que não verdade são garrotes que sufocam o empresário e que geram doenças incuráveis para a empresa e seus sócios ou acionistas, o que os levam ao perecimento.

ANTONIO CARLOS MORAD

ADVOGADO TITULAR – MORAD ADVOCACIA EMPRESARIAL

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