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23 de julho de 2026 | Morad

A RELIGIÃO NA ERA DA CIÊNCIA: QUANDO O FANATISMO SUBSTITUI DEUS

A RELIGIÃO NA ERA DA CIÊNCIA: QUANDO O FANATISMO SUBSTITUI DEUS

Durante milhares de anos, a crença sobre o desconhecido, expresso em um ente de poderes sobrenaturais ocupou um espaço que nenhuma outra instituição conseguia preencher. Ela explicava a origem do universo, justificava os fenômenos naturais, estabelecia códigos morais, organizava sociedades e, principalmente, oferecia respostas para perguntas que a humanidade ainda era incapaz de responder.

Era compreensível.

Sem telescópios espaciais, sem aceleradores de partículas, sem genética, sem cosmologia, sem neurociência, o homem recorria a algo celestial para explicar o desconhecido.

Hoje, porém, a situação mudou profundamente.

Jamais na história acumulamos tanto conhecimento sobre o Universo.

Ainda não descobrimos o que produziu o inicio de tudo, mas ao mesmo tempo teorias da física produzidas por gênios da ciência moderna determinaram claramente a relatividade entre tempo e espaço.

Sabemos que existem centenas de bilhões de galáxias observáveis, cada uma contendo centenas de bilhões de estrelas. A física moderna demonstra que toda a matéria visível representa apenas uma pequena parcela do Universo conhecido, enquanto matéria escura e energia escura permanecem como alguns dos maiores enigmas científicos. Modelos cosmológicos discutem a possibilidade de multiversos, dimensões adicionais e estruturas do espaço-tempo que sequer eram imagináveis poucas décadas atrás.

Quanto mais a ciência avança, maior parece tornar-se nossa percepção da própria ignorância.

Esse talvez seja o primeiro grande ensinamento científico.

A ciência não afirma possuir todas as respostas.

Ela apenas demonstra que muitas das respostas antigas já não resistem ao conhecimento produzido pelo próprio ser humano.

É justamente nesse ponto que surge uma distinção essencial entre espiritualidade e religião.

Espiritualidade representa a busca por significado.

Religião representa sistemas organizados de crenças.

Fanatismo representa a recusa em aceitar qualquer possibilidade diferente daquela previamente estabelecida.

E é justamente o fanatismo que se torna incompatível com o espírito científico.

Não importa se ele nasce no cristianismo, no islamismo, no judaísmo, no hinduísmo ou em qualquer outra tradição religiosa.

Toda forma de fanatismo compartilha a mesma característica: transforma perguntas em respostas definitivas ou, pontos de vista inamovíveis.

A ciência faz exatamente o oposto.

Ela transforma respostas em novas perguntas.

Nesse cenário, merece atenção especial uma das correntes religiosas que mais cresceram nas últimas décadas: a chamada Teologia da Prosperidade.

Difundida principalmente em segmentos neopentecostais, originárias do judaísmo redoutrinado ela sustenta que prosperidade financeira, riqueza material e sucesso profissional constituiriam manifestações diretas da aprovação divina.

Sob essa lógica, fé e contribuições financeiras à instituição religiosa converter-se-iam em mecanismos capazes de produzir bênçãos econômicas.

O problema dessa construção não reside apenas na ausência de sustentação empírica.

Sua consequência social é ainda mais preocupante.

Quando o sucesso financeiro passa a ser interpretado como prova da aprovação de Deus, o fracasso tende a ser interpretado como deficiência espiritual.

A pobreza deixa de ser consequência de fatores econômicos, educacionais ou estruturais para transformar-se em suposta falta de fé, e nesse caso se subjuga, se despreza o indivíduo.

Trata-se de uma inversão ética profunda.

O sofrimento humano deixa de despertar solidariedade e passa a ser visto como responsabilidade exclusiva da própria vítima.

Essa lógica jamais esteve presente de forma dominante no cristianismo histórico, seja no catolicismo romano, na ortodoxia oriental ou mesmo nas tradições protestantes clássicas da Reforma.

Ela constitui uma elaboração contemporânea que associa espiritualidade ao mercado e transforma a religião em mecanismo de consumo simbólico.

Mais preocupante, entretanto, é observar como inúmeras pessoas passaram a transferir integralmente suas responsabilidades existenciais para uma vontade divina.

Vitórias são atribuídas exclusivamente a Deus.

Fracassos também.

O esforço humano desaparece.

A responsabilidade individual enfraquece.

Como exemplo, basta recordar grandes eventos esportivos.

Após uma final de Copa do Mundo, jogadores da equipe vencedora frequentemente agradecem a Deus pela partida ganha. A citação desses indivíduos aclamando, responsabilizando ou agradecendo a Deus, reiteradamente numa fala, como forma de se desculpar ou se engrandecer passa uma ideia clara de fanatismo.

Seria racional imaginar que Deus tenha escolhido um vencedor específico entre atletas igualmente dedicados?

Ou seria mais plausível reconhecer que disciplina, treinamento, estratégia, talento e circunstâncias explicam o resultado muito melhor do que uma intervenção sobrenatural?

Não se trata de negar a fé.

Trata-se de questionar o uso da fé como substituta da realidade.

Talvez o maior equívoco da humanidade tenha sido imaginar Deus como uma versão ampliada do próprio homem.

Um ser que sente raiva, escolhe favoritos, determina vencedores, interfere em disputas esportivas, decide eleições, distribui riqueza ou castiga indivíduos segundo critérios humanos.

Quanto mais conhecemos o Universo, menos sentido parece fazer um Deus antropomórfico moldado à imagem das antigas civilizações.

Talvez Deus, se essa palavra ainda puder ser utilizada, não seja um indivíduo.

Talvez seja a própria estrutura da realidade.

A origem das leis físicas.

O fundamento da existência.

Aquilo que ainda não compreendemos.

Confundir essa possibilidade filosófica com interpretações literais produzidas há milhares de anos talvez seja um dos maiores obstáculos para o avanço simultâneo da ciência, da filosofia e da própria espiritualidade.

Existe uma diferença profunda entre acreditar em Deus e acreditar que já sabemos exatamente quem Deus é.

E talvez seja justamente essa certeza absoluta, e não a fé, que tenha alimentado perseguições, guerras religiosas, agrilhoamento de pessoas e ideias, intolerância e incontáveis conflitos ao longo da história, sendo a escravidão com consentimento divino a pior das formas de desencadeamento do mal.

A justiça e os direitos humanos amenizaram tais questões, mas nesse momento, na atual conjuntura vemos exatamente o contrário, a falta de justiça no que tange à proteção dos menos favorecidos em detrimento do capital, a disrupção com as regras mais sensíveis que regem a proteção dos socialmente desamparados, todas as formas deploráveis do uso de crenças em face de terceiros que certamente são iguais a todos nós levam a crer que algo está muito errado.

Mas a ciência começa a nos confortar, ela tornou muito mais difícil acreditar que seres humanos antigos, limitados pelos conhecimentos de sua época, tenham conseguido descrever o Divino em toda a sua complexidade.

Talvez a maior demonstração de humildade não seja afirmar que conhecemos Deus.

Seja admitir que ainda estamos aprendendo a compreender o Universo.

ANTONIO CARLOS MORAD

Advogado Titular na Morad Advocacia Empresarial

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